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22:22hr

Ele aproximou-se e eu tentei ignorar a tempestade interior que aflorara. A grande perturbação e agitação de espírito que o simples fato de estar alí, ao seu lado, causa em mim. Mas a atriz que mora em mim não consegue convencer nem a si mesma. Um deslize, e tudo o que tentar ocultar é denunciado por um tropeço ou qualquer outro ato desastroso, funesto. É preciso um pouco mais de intimidade com o equilíbrio. Manter-se em pé, as vezes, é quase um desafio. E sem saber como administrar todas aquelas sensações então... é desastre².
Sentir, mesmo que temporariamente, você ao meu lado depois de tanto tempo. E por um milésimo de segundo quase acreditar no meu próprio pensamento. De repente, me dei conta: Preparar o coração todo o tempo que passo sem te ver é uma tarefa em vão. Nada muda, e só as horas passam. É como nadar contra a correnteza. Só deveriam dar um desconto para quem não sabe nadar.
Um passo à frente e estávamos defronte. Face a face, era como se nossos corações voltassem a bater num mesmo compasso como antes. Agora eu poderia olhar dentro dos seus olhos e tentar encontrar as respostas que tanto precisava saber. Isso se os meus olhos não desviassem para a sua boca, agora estranha, que subitamente pronuncia:
- O que fez esse tempo todo?
Eu poderia lhe responder qualquer coisa, menos o que estava pensando. Que para mim era como se o tempo não tivesse passado. Que o calendário na minha escrivaninha estava desatualizado. E que esse tempo todo havia procurado por um outro alguém que trouxesse de volta a sensação que sentia quando você chamava pelo meu nome. Numa espécie de "posse" correspondida e recíproca.
Ao que respondi:
-Nada mais interessante do que pintar as unhas de vermelho e tentar concertar os relógios da minha casa que pararam exatamente às 22:22hr daquela noite.
Ele deixou escapar um sorriso no canto dos lábios, ressaltando cada detalhe das suas linhas faciais impecáveis. E disse que eu continuava a mesma.
Mesmo sabendo não ser mais aquela garotinha com um brilho todo especial no olhar, eu consenti retribuindo-lhe o sorriso. (Ta bom, ta bom... com um pouco de ironia). Mesmo sabendo que eu posso mudar o tempo todo. Sei que algumas lembranças nunca se vão. E novos acontecimentos não são suficientes para enterrar os velhos. Eu sempre lembro disso às 22:22hr.

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